sábado, 30 de setembro de 2017

Rascunhos de carnaval

Desde 2004, por alguns motivos, profundamente, pessoais, me afastei um pouco da ambiência carnavalesca. É irônico afirmar isso, é claro. nascido, criado e morador da cidade do Rio de Janeiro, é, praticamente, impossível, se afastar da ambiência carnavalesca. Mas, devo confessar, que eu tenho tentado. Naquele ano, havia acabado de fundar, com alguns amigos, um bloco de rua, no bairro de laranjeiras, onde morava. O bloco Volta, Alice! Além de participar da fundação, compus, em parceria com mais três compositores, o primeiro samba do bloco. Em seguida, entre outros projetos, comecei a compor pro segundo cd da banda Caixa Preta, que batizei de Jongo contemporâneo e, simultaneamente, comecei a compor pra banda Black Rio, também o segundo cd da gestão de William Magalhães, esse chamamos de SuperNovaSambaFunk. Nesse mesmo ano, faleceu um de meus irmãos, a vida tava bastante confusa e eu tinha bem menos compreensão do caos e da morte. Então, entre tripas e estripulias, tapas e ponta-pés, tombos e cabeçadas, virei aquele ano ao avesso e deu no ano seguinte. Como ainda reinava sobre mim, aquele espírito de folião de rua, achei que era só trocar a fantasia e cair na folia...ledo engano! Tão enganoso, que o limo virou lodo. Salvo, uma novidadezinha e outra, uma nova composição ou qualquer ilusão camelodromática, o 2005, foi um dos piores anos da minha vida. Naquele ano conheci a profundidade melodramática da tristeza de um Pierrot apaixonado ou de um Arlequim abandonado. Na mesma linha de personagens que se desencantam pelas coisas da vida, me vi pela primeira vez, como um estrangeiro de mim mesmo. Foi um ano de pensamentos sombrios, trágico, de tristeza ácida, banzo, insinuações suicidas e profundas descobertas de dimensões de minha subjetividade, que até então, não conhecia. Ah! Que carnaval! Naquele ano não compus um samba, não pensei um enredo e nem desfilei. Só fiz me desapegar, me desprender, desapaixonar, foi o início do meu processo de descolonização. Foi meu carnaval iniciático, pra um longo tempo de libertação. Desde então, não sou mais carnavalista. Entrei noutro portal. Ah! Que carnaval! Quantas fantasias queimadas, quantas cinzas! Estou mais vivo, agora! Provei outros sabores, outros odores, outros saberes e sei mais sobre a morte, sobre caos e sobre mim. No entanto, em meio a toda aquela descarnavalidade sombria, alguns acontecimentos foram decisivos para que eu permanecesse de pé e acreditando na vida. Uma série de shows pelo interior do Estado do Rio, com a banda Caixa Preta, que contribuiu para a finalização do segundo Cd "Jongo Contemporâneo, lançado em 2010, no teatro Caixa Cultural, no Largo da Carioca; a participação no evento da consciência negra, com uma excelente apresentação da banda Caixa Preta, antes do show do artista da noite, que era nada mais, nada menos, que Jorge Ben Jor e pra salvar de vez, aquele meu ano esquesito, ganhei o prêmio palmares de Comunicação, com um projeto-piloto de uma rádio-novela intitulada: "Entre scratches e tambores", onde apresentei uma breve discussão sobre música negra contemporânea. Pesquisa, texto e direção. Esses acontecimentos, com certeza, me deram mais algumas décadas de vida, pra continuar analisando minha relação, inevitável, com as significações produzidas nos carnavais.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Literaturizando

Durante os primeiros anos da década de 1980, as primeiras leituras de textos dos pensadores críticos, que tive o privilégio de fazer, só foram possíveis, porque estavam traduzidas para o português. Karl Marx, Friedrich Engels, Antonio Gramsci, Georg Lukacs, Heidegger, Foucault, Sartre, Bacunin. Enquanto lia algumas obras desses autores, não me importava em dar conta do nome do artista, pesquisador e intelectual responsável pela tradução das mesmas. Hoje, sei o imprescindível valor do trabalho de quem faz as traduções de uma obra literária ou acadêmica. Uma tradução pode destruir a obra original ou pode melhorá-la. Abri essa conversa pra homenagear dois dos mais importantes tradutores brasileiros da contemporaneidade, seguindo a linha de análise gramsciana sobre os diversos tipos de intelectuais. O primeiro agigantou-se através das traduções e trabalhos críticos sobre as obras de Antonio Gramsci e Georg Lukács, falo do intelectual, crítico, pesquisador, professor e tradutor Carlos Nelson Coutinho. Responsável pelas leituras, que me iniciaram no ativismo político, ainda na década de 1980. O segundo, um guerreiro, pesquisador, escritor, crítico, tradutor e, além de contemporâneo, é meu amigo. Carlos Alberto Medeiros, uma das mais relevantes referências do Movimento Negro Contemporâneo brasileiro. Medeiros, hoje, me lembra o feito robusto de Carlos Nelson, ontem. A editora Jorge Zahar tem publicado vários títulos de dois pensadores badalados na atualidade, Zygmunt Baumam e Slavoj Zizek. Baumam já mais popular por aqui e, Zizek em vias de se tornar mais um pop star do mercado editorial brasileiro. No entanto, isso não seria possível, se não existisse a performance, o árduo e prazeroso trabalho do tradut@r. Assim, por trás de todo o sucesso desses autores nos mercados de língua portuguesa, está lá, o intelecto, o corpo e a alma do nosso querido Carlos Alberto Medeiros. Entre suas recentes traduções, encontra-se a Autobiografia de Martin Luther King. Fica a dica: nunca se esqueça de olhar a ficha técnica dos livros. Além dos autores, tem os organizadores, os tradutores, designers gráficos, fotógrafos, ilustradores e a editora. É importante saber quem está por trás daquilo que te proporciona algum conhecimento, dúvidas e provocações estimulantes, pra continuar pensando, lendo, fazendo e sendo o que se é. Boas leituras!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

ACÚMULO

Os rascunhos se acumulam, cada vez mais. A dinâmica da minha vida, a correria no meio do caos, não me deixam transformá-los em obras finais. Assim, sigo assustando-me com minha incompetência organizacional. O susto é tanto, que, às vezes, não me dou conta do valor do trabalho intelectual. Aí, chego a pensar, que só é possível, executar tais tarefas, se trabalhar feito um operário convencional. Nesse caso, não sou analfabeto funcional, Ainda menino, fui iniciado no mundo do trabalho braçal. Depois, tomei consciência da exploração capitalista, a mão de obra operária, a mais valia, a pessoa tratada como mercadoria, as leis trabalhistas e acumulação do capital. Portanto, se me acumulam tantos rascunhos, por que motivo, não negociá-los, afinal? Pode ser, que entre tantos rascunhos, haja uma obra genial. Já guardei muitos papéis rascunhados, com o tempo, ficaram amarelados. Agora, o rascunho é digital e o acúmulo é virtual. Vou vender rascunho no mercado internacional.

domingo, 8 de maio de 2016

Rascunho proposital

Ao longo do nosso desenvolvimento humano, é claro, que essa observação só pode ser feita por alguém, que alcançou ou pelo menos, acredita ter alcaçado, algum nível de desenvolvimento naquilo, que pode ser entendido como humano. Pois, está ficando, cada dia mais complexo entender o que é humano. Bem, esse tipo de construção textual, não seria possível, se não houvesse, aqui, um compromisso ético-estético com o rascunho. Recorro, outra vez, ao mestre Oscar Niemeyer, pra expressar o quanto fui afetado, não tanto por suas obras acabadas, transformadas em referências para história da arquitetura mundial, mas, pela força estética de seus rascunhos. Todas as reportagens, entrevistas e documentários que assisti, onde a obra de Niemeyer era a centralidade, seus rascunhos se apresentavam, pra dar conta da interlocução com o público. Talvez, fosse impossível, apresentar as obras e não apresentar os rascunhos. Estou consciente, de que em literatura, é diferente. Parece haver um acordo interinstitucional, que envolve escritores, editoras, leitores comuns e pesquisadores, quanto a inutilidade do rascunho. Assim, como ver os traços agarranchados, com aspectos de escrita inacabada, feita por um aluno rebelde, que nunca quis ser visto como aquele que "escreve bem" e "tem letra bonita", na mesma medida, sempre gostei de encontrar no interior de obras literárias, os manuscritos de seus autores. Esse fenômeno interrelacional com a subjetividade do trabalho escrito, sempre aconteceu comigo e cada vez, que encontrava um manuscrito, abria-se um portal de análise diferenciado para novas especulações, acerca dos múltiplos modos de comunicar uma ideia através da escrita. As linguagens artísticas, que mais pratico, são música e literatura, com merecidíssimo destaque, para a poesia-musicada ou música-poetizada. São práticas que estão na centralidade daquilo, que acredito ser o meu processo de desenvolvimento humano, desde os sete anos, quando entrei pela primeira vez, em uma sala de aula e pude comparar com as aulas, que recebia em casa, de minha mãe, meu pai e meus irmãos...cada um com sua própria didática. Tenho defendido, aqui, a importância dos meus rascunhos para a construção de um caminho próprio de elaboração intelectual, que se traduz em textos, ora artísticos, ora, acadêmicos, de acordo com a minha predisposição e necessidade, no setido do que considero ser o meu processo de desenvolvimento artístico, intelectual, social e político, logo, humano. Estou experimentando, artísticamente, em música, em literatura e em áudio-visual, esse terceiro campo, não é recente em minha vida, no entanto, atualmente, tenho me dedicado às experiencias elaborativas, o que antes, não fazia, por falta de recursos e tecnologias.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Teorias dos rascunhos

Quando percebi que podia operar códigos da Língua portuguesa para comunicar algo que me inquietava, comecei a viver uma série de experiências surpreendentes. Depois de escrever, ininterruptamente, para exercitar e desenvolver o hábito, a técnica, pra talvez, chegar a um estilo, uma forma própria de se comunicar através da arte escrita, uma coisa aprendi: não se produz uma obra de arte escrita, sem antes produzir rascunhos...e, passei a me encantar pela possibilidade de acessar e descobrir o que os grandes escritores jogavam no lixo. Sempre que via aquelas cenas clássicas das bolinhas de papel, caindo na lixeira ou rolando pelo chão, ficava curioso e a imaginação dava linha na pipa. Após muita observação sobre tudo que chamava minha atenção, entendi que o rascunho era a parte indesejável de um texto. Mais adiante, descobri que nem sempre era a vontade do autor que determinava o que seria texto final e o que seria rascunho. Nessa seqüência de percepções e descobertas, outras vieram. Uma ficha decisiva caiu quando dei mais atenção aos "rabiscos geniais" de Oscar Niemeyer, já que não pude ver os rascunhos do André Rebouças. Ali compreendi, que a arte de projetar, requer interpretação livre e ao mesmo tempo, rigorosa sobre os aspectos do rascunho. No entanto, como nunca temos acesso aos rascunhos que geraram grandes obras de arte, me preocupei em guardar meus rascunhos, ao invés de descartá-los, é claro que não consegui guardar todos, muitos se perderam. Assim, ao longo do meu exercício com a escrita, em todos os sentidos, desenvolvi um afeto quase doentio pelos rascunhos. No momento em que comecei a consolidar a ideia de publicar um livro, estava tão apegado aos rascunhos, que não conseguia imaginar minha primeira publicação literária sem a presença integral ou em parte, do conteúdo dos tais rascunhos. Então, tenho trabalhado, no sentido de recuperar e traduzir os estímulos iniciáticos da considerável porção rascunho da minha relação com a língua portuguesa e a literatura brasileira. Tenho cuidado para não me tornar um acumulador de papéis amarelados, manchados pelo tempo, mas, às vezes, isso acontece. Nesse trabalho tenho encontrado caminhos ainda mais estimulantes para refletir sobre, por exemplo, os diferentes níveis de relação que o povo brasileiro tem com a língua escrita e o quanto tais diferenças facilitam ou dificultam uma compreensão mais precisa do que seja o país, considerando o significativo número de analfabetos, os semi-alfabetizados e uma elite reduzida que domina os códigos da norma culta. Hoje, estou convencido da relevância dos meus rascunhos e por isso estou finalizando este livro Teorias do rascunho, rascunhos pré-textuais. Uma reflexão sobre tudo aquilo que queremos realizar, mas, que ainda não temos estrutura suficiente para fazê-lo, mesmo assim, fazemos. Talvez, seja uma característica que defina um princípio filosófico na forma como o povo brasileiro entende ou tenta entender o que é ser brasileiro. Quando se diz: Brasília é uma cidade planejada e o Rio de Janeiro é uma cidade espontânea. Isso sempre me deixou muito intrigado e provocado a pensar, criticamente, se espontânea não quer dizer: desestruturada, sem acabamento, não pensada. Uma cidade que se desenvolveu de acordo com as necessidades imediatas da Coroa Portuguesa. Quando entrei em um CIEP, pela primeira vez, percebi o quanto aquela arquitetura me chapava, no bom sentido e o quanto chapava as crianças também. Olhar para um prédio que foi projetado e olhar uma favela, é constatar o desespero com que as pessoas pobres constroem suas casas e como os pobres são maioria, a arquitetura do desespero define a estética arquitetônica da cidade, que hoje, chamo de Cidade rascunho. Às vezes, me parece que nada está acabado nessa cidade. Mesmo o que parece está pronto, ainda é rascunho.

É preciso ser, para além do ser

Mais que nunca é preciso contar, recontar e cantar, para além do que te ensinaram ser um conto. Mais que nunca é preciso estar, para além do que te ensinaram ser o Estado. Mais que nunca é preciso compreender o caos, para além do que te ensinaram ser o caos. Mais que nunca é preciso entrar em suas próprias entranhas, sem medo de se perder. É preciso, se necessário, desentender-se consigo, até encontrar o itinerário pra se entender. Mais que nunca é preciso revirar o solo da história, para além do que te ensinaram ser a história. Mais que nunca é preciso educar, para além do que te ensinaram ser educação. Mais que nunca é preciso fazer arte, para além do que te ensinaram ser arte. Mais que nunca é preciso criar, para além do que te ensinaram ser a criação. Mais que nunca é preciso perceber, para além do que te ensinaram ser a percepção. Mais que nunca é preciso ler, para além do que te ensinaram ser a leitura. Mais que nunca é preciso escrever, para além do que te ensinaram ser a escrita. Mais que nunca é preciso sentir, para além do que te ensinaram ser o sentimento. Mais que nunca é preciso conscientizar-se, para além do que te ensinaram ser a consciência. Mais que nunca é preciso pensar, para além do que te ensinaram ser o pensamento. Mais que nunca é preciso ser livre, para além do que te ensinaram ser a liberdade. Mais que nunca é preciso ser, para além do que te ensinaram ser. Mais que nunca é preciso viver, para além do que te ensinaram ser a vida. Mais que nunca é preciso humanizar-se, para além do que te ensinaram ser humano. Mais que nunca é preciso aprender, para além do que te ensinaram ser o aprendizado. Mais que nunca é preciso ensinar, para além do que te ensinaram ser o ensino. Mais que nunca é preciso conhecer-se, para além do que te ensinaram ser o conhecimento. Mais que nunca é preciso se inventar, para além do que te ensinaram ser uma invenção. Mais que nunca é preciso sonhar, para além do que te ensinaram ser o sonho. Mais que nunca é preciso realizar, para além do que te ensinaram ser uma realização. Mais que nunca é preciso libertar, para além do que te ensinaram ser a libertação. Mais que nunca é preciso descolonizar-se, para além do que te ensinaram ser a descolonização.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Sou assim

Se não fosse como sou, não saberia o que é ser assim. Se não tivesse nascido onde nasci, não saberia o que é nascer ali. Se não tivesse me criado em várias partes do Estado do Rio, não saberia que ser fluminense é muito mais que torcer pro clube carioca. Se não tivesse caído do berço antes dos dois anos, não saberia os significados de uma queda. Se não tivesse me queimado no ferro de passar roupa, não teria descoberto que algo quente demais queima a pele. Se eu não fosse neto de seu Policarpo de Paula, não teria tantas melodias na composição dos meus tecidos neuronais, não teria ficado exposto aos seus momentos de inspiração, no alto do morro São João, abraçado a sua pequena sanfona de oito baixos. Se não fosse filho de D. Mariana Francisca Baptista, não saberia o que era ser mulher negra, pobre e mãe entre as décadas de 50 e 90, na periferia da cidade do Rio de Janeiro. Se não fosse filho de D. Mariana, não teria o privilégio de aprender gungunados, pontos de jongo, maxixes e sambas dentro de casa. Se não tivesse vivido parte da infância em Campos dos Goytacazes, não saberia o que significa ser Boia-fria, agricultor, trabalhador rural e latifundiário. Não entenderia a lógica da reforma agrária. Não teria aprendido a respeitar o tempo da semente que introduzimos na terra, até virar planta, até gerar o fruto-alimento. Se não tivesse vivido tais experiências, não seria quem sou. Sou assim, porque, vivi assim.

ARTE, abreviatura

A letra "a", primeira do nosso alfabeto, coincidentemente, a primeira do meu nome e a primeira da palavra arte. Desde que percebi minhas inquietações, inconformações e incompreensões sobre as coisas da vida, tento, com certa persistência, resolvê-las com reflexões e ações possíveis. Ao mesmo tempo, por não haver fórmula perfeita, permaneço em constante processo de tentativas, colecionando erros e acertos, convencido de que não se deve temer a possibilidade de errar por não ter certeza do acerto, pois, pior que isso, seria pensar estar certo temendo o erro. O interessante nessa equação é perceber o quanto as experiências alteram nossa estrutura de percepção, provocando posicionamentos diferenciados diante da vida. Por exemplo, essa madrugada, entre o cansaço do dia, ideias perambulantes e alguma dificuldade de entrar em estado profundo de sono, acabei me entregando a uma reflexão sobre a palavra "Arte". Fiquei me imaginando dentro de um organismo gigante, que alguém resolveu chamar de Arte e sentia necessidade de conhecer cada parte desse organismo, para tanto, precisava encontrar os sentidos ocultos, em cada uma de suas partes ou compartimentos. Esse exercício foi fundamental pra me conduzir ao estado de sono que precisava. Foi uma viagem tranquila e gratificante. Acordei com uma extrema vontade de traduzir algo dessa experiência, não sobrou muito de todo o acontecimento, mas... viajei na onda da palavra Arte como se fosse uma abreviatura, um código de entrada para um determinado sistema. Então, o A seria Ar, o R seria respiração, o T seria tempo e o E seria espaço. Essa equação me confirmou a informação de que a Arte é o próprio ato de viver, é a própria vida. Estar vivo significa estar em estado de arte, ou seja, vida e arte, completam-se. Não há vida sem arte e nem arte sem vida. A partir daí, podemos pensar que a morte seria a ausência de arte ou uma interrupção no processo da vida e, gerar, ininterruptamente, a vida, seria a maior obra de arte possível. Contudo, isso é só uma reflexão sobre a palavra ARTE, no sentido de abreviatura da VIDA. Boas reflexões e até a próxima!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Arte de ler e escrever arte

Ler pode nos levar à Leicura, quero dizer, que ler cura. Ler pode levar alguém à loutura? Mas, essa palavra não existe! Ah! É claro. Licença poética pra fundir loucura com leitura. Enfim, coisas da literatura. Convido pra essa leitura uma interlocutora importante pra nossa reflexão, Marisa Lajolo(2001). "A literatura fala de vários mundos: alguns parecidíssimos com o nosso, onde, por exemplo, tem gente que morre de fome nas ruas, e de mundos muito diferentes, onde vivem espíritos, anjos, energias e demônios".( Lajolo, 2001, p.9) Trouxe esse comentário pra ilustrar meu assunto principal, que trata de uma cena inesquecível da minha adolescência, que sempre me motivou a ler e a escrever, sobretudo, para compreender porque essas duas atividades podiam apresentar algum tipo de perigo pra alguém. Então, vamos à cena: Por volta dos meus catorze e quinze anos, estava sendo iniciado no movimento comunitário, fato que alteraria toda a configuração da minha cabeça pra sempre. A principal atividade nesse período era a leitura de clássicos da filosofia, do pensamento sociológico, político e econômico, entre eles, Aristóteles, Hegel, Marx, Hidegger, Gramsci, Lukács, entre outros. Esses autores consagrados como verdadeiros monstros da arte de pensar, me assombravam, uma vez que eu estava começando meu processo de militância política, tinha uma certa urgência de aprender o básico sobre a engenharia do pensamento ocidental, já que nasci no Brasil, onde a cultura dominante, estrabicamente, se enxerga como ocidental, mesmo não sendo. Ou seja, precisava desenvolver um relacionamento sério com a teoria social crítica, além de outras demandas, como por exemplo, me decidir quanto a minha prática religiosa, se seria católica, umbandista, candomblecista, protestante, budista ou qualquer outra coisa, que eu pudesse dar conta naquela fase da minha vida. Nesse período, li alguns clássicos da literatura brasileira e portuguesa, que foram fundamentais para a formação da minha base poética. Logo, cheguei a conclusão que não daria conta de nenhum processo doutrinário e, que a tendência mais próxima daquilo tudo que ainda não sabia sobre mim mesmo, era o ateísmo, que por me parecer extremo demais, me exigia uma dose exaustiva de estudos filosóficos e teológicos, diariamente. Essa autodeterminação pelo conhecimento foi me transformando em um autodidata e, se há alguma característica que defina um autodidata, posso apontar o comportamento autocentrado. No entanto, a prática política em torno das questões da comunidade, me ajudava a equilibrar essa postura autocentrada, à medida que me relacionava com a teoria num exercício de monge, no interior do meu quarto de adolescente afro-periférico, procurava aplicar o conhecimento estudado às várias demandas que se apresentavam no cotidiano comunitário e, ao mesmo tempo, deixava minha vida seguir os ventos que sopravam do seio desse movimento comunitário para outras partes do mundo ou do meu mundinho imediato de pequeno príncipe-monge-negro, candidato a líder comunitário,poeta e intelectual orgânico, nos termos Gramsciano. No meio dessa aparente complexidade, ainda tinha que cuidar da casa, ir à escola e realizar alguma atividade que pudesse ser chamada de "trabalho remunerado". Assim, esses anos foram marcados por uma rotina, pontuada por esses tópicos. Todos os fins de tardes, tínhamos a "Pelada na Praça". Era uma espécie de Fórum futebolístico ecumênico inter-geracional, onde as novas gerações, tinham a oportunidade de se expor e provar se podiam ou não estar entre os mais velhos, pelo nível de habilidade com a bola e com as ideias também. Portanto, era uma arena política comunitária, com enfrentamento corporal direto. Uma onda meio idade média. Desde criança penso e pratico a linguagem futebolística, gosto de escrever sobre essa temática. Desse modo, o compromisso com aquele Fórum futebolístico, me tomava, pelo menos, duas ou três tardes na semana. Mas, era o melhor lugar para compreender a dinâmica sócio-política do Bairro Jardim Palmares. Às vezes, voltava pra casa, já à noitinha, com joelhos, pernas, cotovelos ralados, sangrando, roupas rasgadas, cheias de lama, enfim, um verdadeiro caos, "vida de moleque! Algumas dessas tardes geravam um drama familiar, que me angustiava muito e eu não sabia como resolver. Quando meu tio chegava do trabalho, ele era funcionário público, da secretaria municipal de obras, lá estava eu, com a luz acesa, agarrado com minhas leituras e rascunhos. Essa prática já me acompanhava desde a infância, quando ficava lendo as revistas em quadrinhos do meu irmão, às vezes, à luz de vela. Naquela fase, não estava nem um pouco preocupado com a conta de luz, queria ler, ler, até cair de sono e dormir, profundamente. Meu tio, incomodado com aquele comportamento estranho pra ele, que era um homem semi-alfabetizado, se é que podemos pensar em alguém semi-alfabetizado. Pra ele, o meu comportamento, era preocupante. Eu poderia estar enlouquecendo de tanto ler...poderia estar desenvolvendo um quadro psicótico, por parecer tão isolado e absorvido pelas leituras. Como ele não sabia me explicar o que pensava de mim, falava qualquer coisa que pudesse me provocar a alterar minha rotina, assim, em uma daquelas tardes, ele não se segurou e mandou: "...Meu sobrinho, escuta aqui! Eu tô muito preocupado com você. Você fica aí, nesse quarto quieto...toda vez que eu chego, você tá aí, com a luz acesa, lendo esses livros, que eu não sei pra que servem". Aí, respirou e completou- "eu tô achando que você vai ficar meio maluco e, é por isso que tô preocupado". Me lembro que tentei explicar pra ele, a importância daquelas leituras pra mim, porém, sei que ele continuou acreditando que aquilo me levaria a loucura. Bem, de lá pra cá, já li dez vezes mais a quantidade de livros, que estava na minha mesa, naquele fim de tarde e, até acho que conheci, de certa forma, um pouco de loucura, no entanto, é a loucura do conhecimento e a cada dia, enlouqueço um pouquinho mais. Cada novo texto publicado me deixa um pouco mais louco, louco para ler outro, escrever outro e publicar outro. Boas leituras e boas reflexões. Até o próximo texto.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Um pré-texto

Agora, não tenho nada pra pôr na página. No entanto, só pelo simples fato de pensar que não tenho, já é um estímulo para tê-lo. Assim, a caneta sai dançando sua dança contemporânea, um misto de jazz com jongo. Enquanto isso, penso se ligo o computador ou se deixo esse rascunho curtir um pouco mais a sua condição de pré-texto. Logo, percebo que meu compromisso com a escrita devora, facilmente, algumas horas de sono e, o trabalho de transformar uma página em branco em outra coisa, é sempre um desafio irresistível. Ao chegar nesse ponto do texto, algum resultado começa a ficar explícito, como por exemplo: aquela página, antes branca, jamais será a mesma depois dessa madrugada. Ela terá seu lugar na estante de alguma biblioteca, agora, ela é uma estrela. Ela acaba de se converter em um rascunho pré-textual, um tipo de apelo pra alguém que precisa escrever, tanto quanto respirar ou beber água. Essa página é, sobretudo, a síntese de um acontecimento que podia dar em nada, contudo, após algumas canetadas, se transformou em mais uma crônica poética da madrugada.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Democracia poeticipativa

Essa roupa tá legal, pra ficar em casa, curtindo o cafofo,trocando uma ideia e sonhando com o mundo ideal. Considerando a chuva que parece sem final...vou ligar pro boteco, pedir um petisco, falar pro maneco, com todo carinho, me manda um caneco gelado, sem cisco e sem colarinho, daquele seu chopp nacional. Essa cidade é tão vaidosa, com sua fama de maravilhosa e seu estranho ranço colonial. Entra ano sai ano, governo fardado, governo à paisano e o caos da cidade não desce nos canos, qualquer chuva miúda vira temporal, entupidos, os ralos denunciam a obsolescência da malha pluvial. Com alguns metros cúbicos de água, a cidade se acaba, fica alagada , da Lagoa à central. O lixo boia, na baía de guanabara e Araribóia mostra a cara mascarada no cartão postal. Essa roupa tá legal, pra ficar em casa e escrever mais um poema marginal.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A dialética da esperança

A espera de um é a desesperança do outro. Reflito sobre a estranha condição popular, determinada pelo exercício de poder das elites... O sociólogo Herbert de Souza, mas conhecido como Betinho, um dia disse: " Quem tem fome, tem pressa!" É uma afirmação cheia de significados, sobretudo, pra quem sabe o que é fome, o que é ausência total de alimentos. Assim, como as manifestações estão nos mostrando que não é só pelos vintes centavos, ao longo de nossas vidas, vamos aprendendo, que a fome não é só de comida e, como dizem os versos da canção dos Titãs:" ...agente não quer só comida, agente quer comida diversão e arte. A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte..." Em sociedades como a nossa e, são tantas pelo mundo afora, principalmente, aqui na América latina e África, que ainda sofrem com os reflexos da colonização europeia, a questão social se apresenta de forma, extremamente, violenta. Os pobres são coisificados, diariamente, e jogados na lama, nas sarjetas, onde se misturam com os ratos, baratas e sacos de lixos, que a engrenagem sócio-econômica produz. Os pobres não podem esperar! Não podem esperar pela genialidade dos políticos de mente brilhante, que podem resolver problemas básicos, mas preferem usar a inteligência pra usurpar do patrimônio público. Aquilo que deveria ser devolvido em políticas públicas decisivas para combater a desigualdade social, se perde nas tramas de um sistema elaborado pra manter o "status quo". O povo não pode esperar! Os empregados trabalham, são explorados até a última gota de suas potências. Os desempregados se desesperam, surtam, enlouquecem e cometem atos extremos...são punidos, são presos, são vandalizados e não conseguem se libertar do estigma negativo que recebem por demonstrarem suas insatisfações... Os pobres não podem esperar! "...Um homem se humilha, se castram seus sonhos...seu sonho é sua vida e vida é trabalho... Um homem sem trabalho, o homem não tem honra e sem a sua honra, se morre , se mata..." Salve o poeta popular, Salve Gonzaguinha!

domingo, 28 de julho de 2013

Pensamentos ritmológicos

Na dinâmica da vida em sociedade, se você não imprime o seu ritmo, fica pré-disposto a ser levado pelo ritmo dos outros. Mas, sabemos que não é nada fácil resistir às ondas tsunâmicas, que batem em nossa praia e ameaçam desabar nosso barraco.Se não estivermos muito firmes em nossos propósitos, o barraco vai feito barquinho de papel nas correntes da chuva. Não pretendo aqui, falar das "Águas de Março" nem das catástrofes dos moradores das chamadas "áreas de risco" e muito menos chorar sobre o leite derramado, ou seja, se lamentar pelo que já se perdeu e não tem jeito. Assim, é o tempo, autônomo, livre passageiro da imensidão, jamais apresentará o ticket de volta, o tempo só faz a viagem de ida. Nós, na nossa paranóia de controle das sensações, criamos a ilusão de que o tempo retorna pra resgatar os retardatários. O que passou, quero dizer, aquilo que aconteceu, temos o tempo presente pra pensar. O que ainda não aconteceu, temos a soma do passado com o presente pra pensar. No entanto, o que está acontecendo agora, não temos mais tempo pra pensá-lo. Ou pensamos antes ou pensamos depois, durante o acontecimento, é impraticável, pensar. O instante do ato, é todo ocupado pela manifestação da atitude traduzida em si, uma síntese, ritmológica e perfeita da junção de causa e consequência de um mesmo movimento, que tem início, desenvolvimento e conclusão. No momento do ato, só dá pra agir, ou seja, pôr em prática o que já foi pensado.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Os mundos e as mudanças mundiais

Estou em crise desde quando percebi que podia mudar o mundo. De lá pra cá tenho percebido , que às vezes mudo só o mundo imediato, esse mundinho à minha volta, às vezes esse mundinho me muda, em outros momentos, nos mudamos mutuamente. A crise permanece e, um ponto crônico surge quando percebo, que nem eu nem o mundo conseguimos mudar nada. Atualmente, entro em crise sempre que percebo a necessidade de mudar algo, porque tenho que decidir se mudo aquilo ou deixo aquilo sem mudança e corro o risco de me mudar em função do conservadorismo do todo que precisa ser mudado. Uma coisa é certa, essa minha crise constante por mudar o mundo e, simultaneamente, mudar a mim mesmo, já está muito mudada. Não se parece nada com aquela que percebi, na primeira vez que me mudei, sem saber ainda que podia mudar o mundo. Perceber a necessidade de mudar é bom. exercitar a mudança é melhor e perceber-se mudado é ainda muito melhor. Assim, entendo que todo dia é dia de mudar algo em nossas vidas. Quem tem medo de mudanças, deve estar impregnado da ideia de "controle" sobre a vida de alguém e teme perder esse lugar de poder. O prazer de controlar é o mesmo de oprimir. Quando percebemos que podemos controlar alguém, dominar alguém, automaticamente, entendemos que é possível tratar esse alguém como nosso subalterno e, não como nosso igual, ou seja, esquecemos, voluntariamente, quais são os procedimentos normais nas relações entre seres humanos, que se respeitam. Todos estamos pré-dispostos a esse abismo, é necessário que estejamos atentos para não cair e mais atentos ainda, para não naturalizar a queda e se transformar em mais um opressor.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Construção, Obra e direito autoral

A palavra obra lembra construtores, engenheiros, arquitetos, operários e imobiliárias. Essas são as funções e profissões ligadas diretamente ao mercado da construção civil e, que movimentam o badalado mercado imobiliário tanto na esfera pública quanto na esfera privada. A centralidade da palavra obra na dinâmica da vida prática da sociedade, é algo impressionante. Uma obra literária pode ser consequência de uma obra, no sentido de construção de uma casa, de um barraco ou de um abrigo qualquer, que vá resolver, ainda que parcialmente, o problema de uma família ou de um indivíduo, quanto à proteção de sua integridade física. O intenso e agitado mercado imobiliário não é dominado pelos operários da construção, esses são contratados pelas construtoras, que são contratadas pelo poder público, que deveria ser o poder responsável por dialogar com os operários para resolver o problema da divisão, redistribuição e ocupação do solo, rural ou urbano. Na maioria dos casos e, sobretudo, como parte de uma postura neo-liberal, o Estado repassa esse poder para o mercado imobiliário, ou seja, o conjunto de empresas de construção e de compra e venda de imóveis, construtoras e imobiliárias, que uma vez, empoderadas pelos órgãos públicos e por leis oficiais, supervalorizam seus direitos e super-desvalorizam os direitos daqueles que são os reais construtores e que no final do processo, serão ainda os consumidores, no caso das chamadas casas populares. A construção de uma casa simples, ou popular, igual aquela em que nasci, no bairro Vila Americana, em Queimados, Baixada Fluminense do Rio de janeiro, que foi elaborada e construída por meu pai, que não era engenheiro nem arquiteto, era um experiente pedreiro e mestre em carpintaria, ele detinha os conhecimentos básicos e necessários para construir uma casa simples. Hoje, pensando sobre a questão social, com todas as suas múltiplas expressões, situada na centralidade do debate e das reflexões sobre o enfrentamento do Serviço Social no campo da formação profissional e do mercado de trabalho do Assistente Social, entendo um pouco mais sobre a "dialética marxista", tanto quanto a teoria Gramsciana do "intelectual orgânico" na luta de classes da sociedade capitalista, onde segundo a análise marxista, o capitalista explora a mão de obra operária e ainda o aliena dos valores resultantes do produto do seu trabalho. Em outras palavras o operário produz, mas não desfruta do valor daquele produto, porque, antes de produzi-lo, o dono já era o capitalista e não o operário, que além de produzir, se confunde com a própria mercadoria que produz e, acaba sendo vendido e comprado como se não fosse mais um ser humano e sim, uma coisa, não mais sujeito e sim, objeto de manipulação de outro sujeito, seu patrão, seu dono. Por mais que não pareça estou falando de "direito autoral", é claro que, estou fundamentando para que seja possível, uma compreensão lógica do assunto. No caso do meu pai, penso que ele teve segurança pra construir sua própria casa, por saber que era dono do terreno e desfrutaria, totalmente do valor daquela obra. Isso me parece lógico, já os pedreiros que são contratados pelas construtoras, para construir em terrenos de outros, só podem vender a mão de obra, sem o direito de reclamar o valor dessa venda e sem nenhum direito sobre a obra construída. Meu pai era pedreiro, fazia casas...eu sou compositor, faço canções. O que há de comum entre essas duas atividades? Uma das afinidades entre as duas é o processo artesanal, as duas partem de um princípio da abstração livre para a uma elaboração concreta, fazer uma casa, nasce da necessidade de se abrigar e/ou abrigar a família. Fazer uma canção, nasce da necessidade de se expressar e/ou comunicar ideias para a coletividade. Nos versos inesquecíveis da composição de Zé Geraldo podemos refletir sobre isso: tá vendo aquela igreja, moço? Eu também trabalhei lá! Tá vendo aquele edifício, moço? Eu também trabalhei, lá! Se cada pedreiro ao ser contratado, pudesse se valer de um artigo, onde ficasse garantido pra ele, um por cento sobre o valor de venda daquela casa ou conjunto de casas que ele está construindo ou participando da construção, certamente, isso causaria uma significativa mudança na forma de se relacionar com o Estado e com o mercado imobiliário. Isso colocaria o pedreiro como investidor nesse mercado e não só como, massa de manobra, peça da engrenagem ou peão de obra. Essa porcentagem poderia ser comparada com o direito conexo, quando o músico participa da gravação de um disco ou da apresentação de um espetáculo, mesmo não sendo o autor daquela obra, tem direito à porcentagens pela participação, independente do cachê ou diária. Essa seria uma maneira de pensarmos um caminho reflexivo de enfrentamento da questão social, analisando as afinidades de classes e as afinidades dos mercados. Aqui, consigo perceber uma proximidade, quase inseparável do mercado musical com o mercado da construção civil, incluindo o mercado imobiliário. Aproveito pra lembrar alguns versos da obra de um compositor contemporâneo, que trata exatamente dessa questão: "a cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe e o debaixo desce" ( Chico Science em, Da lama ao caos, do caos à lama.)o enriquecimento do capitalista e o empobrecimento do operário. O que esse artigo prevê é uma forma de frearmos, minimamente, essa lógica perversa do capital sobre a classe operária, que tanto alimenta a eterna questão social, como algo sem resolução para os pobres e fator de vergonha para as classes pensantes de um país com pretensões adultas.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Dois pesos

Penso estar chamando alguém pelo codinome "comunidade", alguém que seja ou possa ser um tipo de interlocutor imediato, mais que uma pessoa próxima do convívio pessoal. Posso estar imaginando que ao falar "comunidade", contemplo todos os meus interlocutores próximos e distantes, sem precisar citar nomes de uns ou de outros. Enfim, contudo que possa parecer, estou certo de que gosto de usar essa palavra "comunidade" por saber da importância dela em minha vida real, concreta e prática. Não teria alcançado o grau de percepção sobre a subjetividade humana, por exemplo, se não tivesse me submetido à experiência de viver em "comunidade" e, simultaneamente, poder trabalhar minha individualidade. Por perceber que era fruto de uma solidão, que um dia se sentiu só e buscou companhia no meio dos seus pares. Desde então, vivo o drama de ser comunitário e ser individualizado, sempre tentando equilibrar os pesos nos dois pratos da balança. O equilíbrio é o maior desafio, contudo, sei que sou e sou muitos, em meu silêncio e em minha solidão acompanhada das solidões dos meus interlocutores, comuns e solidários na vida comunitária.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Dialética da leitura

Escrever, não pode mesmo ser uma atividade só emotiva. Agora, sei o quanto me valeu minha dedicação à poesia. O quanto fiz pra acreditar no meu interesse por essa forma de expressão, que nos momentos mais difíceis da minha vida, me ajudou a revirar-me e a reinventar-me. Já cheguei a pensar que resolveria todos os meus problemas através da poesia e, que a poesia resolveria todos os problemas do mundo...bobagens, ingenuidade de poeta! Ao longo da vida, venho respeitando minha intuição, em quase tudo que faço ou deixo de fazer, ainda não ganhei na "mega sena", mas já acertei no amor. Dois pilares na minha família, foram decisivos para o meu envolvimento com a linguagem escrita: Meu pai, exímio contador de "causos", semi-analfabeto e minha mãe, alfabetizada, cantora do melhor repertório de samba, que já escorreu pelos leitos desse Rio de Janeiro. Comecei a ler, antes de escrever. Em seguida, aprendi que pra escrever bem, era necessário ler bastante, pra estreitar a relação com a língua, conhecer os códigos, entender as artimanhas da arte de escrever. Assim, saí devorando tudo que encontrava pela frente. Tudo que atraía meus olhos, merecia ser lido. Ler, passou a ser uma das "coisas" mais interessantes, comuns e, ao mesmo tempo, especiais pra mim. Minha intuição sempre me chamou pra esse meio, no entanto, nem sempre atendi ao seu chamado, se tivesse atendido com mais precisão, já teria produzido muito mais. A introspecção é um traço marcante em minha personalidade e decisivo em meu comportamento. Tenho observado, que sou capaz de ficar só comigo mesmo, por tempo indeterminado, sem sentir falta ou chamar a presença de outra pessoa pra dividir qualquer que seja a atividade em questão, o que não quer dizer, que eu goste ou prefira fazer tudo sozinho...muito pelo contrário, adoro parcerias e coletividades, as leituras mais transformadoras da minha vida foram realizadas em grupo, em fases diferentes do meu desenvolvimento como pessoa. Tanto ler quanto escrever, são atividades onde o leitor ou escritor, exerce a função de interlocutor entre o texto e o receptor e, converte-se em uma coisa e outra, simultaneamente, à medida que escreve, lê...e à medida que lê, escreve. Quero situar com isso, que há um diálogo de confronto, imprescindível, entre leitura e escrita, escrita e leitura, com objetivo principal de gerar e tornar compreensível a ideia .

sábado, 17 de novembro de 2012

Rascunhos apresentativos

Quando comecei a pensar um projeto literário, que contemplasse a imensidão de anotações guardadas nas gavetas, pastas, caixas, arquivos, agendas antigas e guardanapos amarelados, juro, que não imaginava a dimensão desse empreendimento. Ao me voltar para os tais escritos, fui obrigado a relê-los. Essa releitura me levou a outros caminhos emocionais, que não tomaria, se não reencontrasse esses rascunhos. Dei de cara com sensações, já quase esquecidas, na penumbra, qual a chama de uma vela, no finzinho. Além de me atracar com esses "pseudos-textos", posso chamá-los assim, porque a maioria não passava de uma geringonça de garranchos, que me trouxe um alto grau de dificuldade até, pra decifrá-los. Afinal de contas, rascunhos são rascunhos, a gente produz como pode e deixa pra lá. Uma das funções primordiais do rascunho é não deixar uma ideia, ou o sentido central de uma ideia, se perder. Ao longo do período, que fiquei cuidando dos meus rascunhos, redescobri, reaprendi e aprendi uma série de coisas sobre mim mesmo. Como por exemplo, por quê guardar tanto rascunho? Descobri que sou apaixonado por processos científicos, ainda que seja só pra fazer arte. Por isso, guardava esses rascunhos como se estivesse guardando códigos de uma fórmula, para criação de alguma arma de guerra. Quando penso nisso, impossível não lembrar de uma conversa com o filósofo e professor Júlio Tavares, quando falávamos sobre "Jongo contemporâneo" e ele do alto de sua sabedoria dizia: "...Quem tem um conceito, já ganhou metade da guerra!" Tenho que admitir que estou trabalhando, conceitualmente, desde que comecei a me expressar publicamente. Daí, a causa de tantos rascunhos. Outra coisa que aprendi, é que cada rascunho é múltiplo de si. Quero dizer, que se eu voltar várias vezes no mesmo rascunho, posso produzir vários textos diferentes, é como se o rascunho fosse um radical, que se combina com diversos prefixos e sufixos, ou um pré-roteiro que pode receber alterações no seu início e no seu final. Para ser honesto comigo e com minha fase de aspirante a escritor, sempre soube que não ia dar conta de todos os rascunhos, alguns seriam publicados, tal como foram escritos, só seriam transcritos. Ao mesmo tempo, precisei admitir, dessa vez, pra fortalecer o conceito "rascunho-gráfico", que esse livro, jamais seria concluído ou finalizado, estaria sempre em fase de elaboração, seria sempre um monte de rascunhos inacabados. Tenho rascunhos da adolescência e não paro de produzi-los, onde vou chegar com tantos rascunhos? Por isso, resolvi começar esse texto, na intenção de utilizá-lo na apresentação do meu primeiro livro de reflexões sobre o exercício da memória afetiva, através da arte de escrever. Ao contrário do que possa parecer, produzo muito rascunho, porque sou inquieto, crítico e auto-crítico o suficiente pra ficar anos sem escrever nada, só ouvindo, lendo, pesquisando e re-significando o barato de escrever. Ao mesmo tempo, gosto tanto do que faço e acredito tanto no meu "taco", que sou capaz de afirmar: Essa é a apresentação que sempre quis pra esse livro. Boas reflexões para todos.

Bipolar

Às vezes, me parece que ser bipolar é saber viajar, de um polo ao outro, sem parar... Como se fosse um raio na velocidade imperceptível de um piscar... Assim, enquanto escrevo e pisco percebo com quantas piscadas vejo um verso e com quantas pinçadas pinço um cisco... Essa noite sonhei que estava numa pescaria, colocava a isca no anzol, lançava o anzol na água e não fisgava a peixaria... depois de algum tempo, já exausto, me rendi com as mãos pro alto e decidi que só ia pescar poesia... Ser bipolar é confundir a meta de um pescador com a de um poeta. Daquele dia pra cá, escrevo sempre que penso em pesca. Não sei com quantos peixes se faz uma peixada nem quantos versos tem uma poesia pescada. Ah!Isso não sei, o importante é que pesquei... É claro que não contei a quantidade de piscadas. Ser bipolar é se comprimir entre os polos, pra se explicar... A arte do pescador é pescar peixes no mar, já o poeta tem a arte de ciscar ciscos no olhar.

Raciocínio negrológico

Em uma casa de terreiro, nasce o sambista, que faz samba de terreiro. O samba feito no terreiro, quase sempre é numa roda com mais de um sambista. Em uma roda de samba, nascem várias ideias, inclusive, a de criar uma escola de roda de samba de terreiro... Pra que nasçam outros sambistas, herdeiros daqueles que criaram as primeiras rodas de sambas e os primeiros sambas de terreiro. Nessa mesma casa, com terreiro, roda de samba, sambistas e muitas ideias, reinventa-se a lógica de ser "humano negro", uma espécie de negrolosofia.