terça-feira, 9 de abril de 2013

Dois pesos

Penso estar chamando alguém pelo codinome "comunidade", alguém que seja ou possa ser um tipo de interlocutor imediato, mais que uma pessoa próxima do convívio pessoal. Posso estar imaginando que ao falar "comunidade", contemplo todos os meus interlocutores próximos e distantes, sem precisar citar nomes de uns ou de outros. Enfim, contudo que possa parecer, estou certo de que gosto de usar essa palavra "comunidade" por saber da importância dela em minha vida real, concreta e prática. Não teria alcançado o grau de percepção sobre a subjetividade humana, por exemplo, se não tivesse me submetido à experiência de viver em "comunidade" e, simultaneamente, poder trabalhar minha individualidade. Por perceber que era fruto de uma solidão, que um dia se sentiu só e buscou companhia no meio dos seus pares. Desde então, vivo o drama de ser comunitário e ser individualizado, sempre tentando equilibrar os pesos nos dois pratos da balança. O equilíbrio é o maior desafio, contudo, sei que sou e sou muitos, em meu silêncio e em minha solidão acompanhada das solidões dos meus interlocutores, comuns e solidários na vida comunitária.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Dialética da leitura

Escrever, não pode mesmo ser uma atividade só emotiva. Agora, sei o quanto me valeu minha dedicação à poesia. O quanto fiz pra acreditar no meu interesse por essa forma de expressão, que nos momentos mais difíceis da minha vida, me ajudou a revirar-me e a reinventar-me. Já cheguei a pensar que resolveria todos os meus problemas através da poesia e, que a poesia resolveria todos os problemas do mundo...bobagens, ingenuidade de poeta! Ao longo da vida, venho respeitando minha intuição, em quase tudo que faço ou deixo de fazer, ainda não ganhei na "mega sena", mas já acertei no amor. Dois pilares na minha família, foram decisivos para o meu envolvimento com a linguagem escrita: Meu pai, exímio contador de "causos", semi-analfabeto e minha mãe, alfabetizada, cantora do melhor repertório de samba, que já escorreu pelos leitos desse Rio de Janeiro. Comecei a ler, antes de escrever. Em seguida, aprendi que pra escrever bem, era necessário ler bastante, pra estreitar a relação com a língua, conhecer os códigos, entender as artimanhas da arte de escrever. Assim, saí devorando tudo que encontrava pela frente. Tudo que atraía meus olhos, merecia ser lido. Ler, passou a ser uma das "coisas" mais interessantes, comuns e, ao mesmo tempo, especiais pra mim. Minha intuição sempre me chamou pra esse meio, no entanto, nem sempre atendi ao seu chamado, se tivesse atendido com mais precisão, já teria produzido muito mais. A introspecção é um traço marcante em minha personalidade e decisivo em meu comportamento. Tenho observado, que sou capaz de ficar só comigo mesmo, por tempo indeterminado, sem sentir falta ou chamar a presença de outra pessoa pra dividir qualquer que seja a atividade em questão, o que não quer dizer, que eu goste ou prefira fazer tudo sozinho...muito pelo contrário, adoro parcerias e coletividades, as leituras mais transformadoras da minha vida foram realizadas em grupo, em fases diferentes do meu desenvolvimento como pessoa. Tanto ler quanto escrever, são atividades onde o leitor ou escritor, exerce a função de interlocutor entre o texto e o receptor e, converte-se em uma coisa e outra, simultaneamente, à medida que escreve, lê...e à medida que lê, escreve. Quero situar com isso, que há um diálogo de confronto, imprescindível, entre leitura e escrita, escrita e leitura, com objetivo principal de gerar e tornar compreensível a ideia .

sábado, 17 de novembro de 2012

Rascunhos apresentativos

Quando comecei a pensar um projeto literário, que contemplasse a imensidão de anotações guardadas nas gavetas, pastas, caixas, arquivos, agendas antigas e guardanapos amarelados, juro, que não imaginava a dimensão desse empreendimento. Ao me voltar para os tais escritos, fui obrigado a relê-los. Essa releitura me levou a outros caminhos emocionais, que não tomaria, se não reencontrasse esses rascunhos. Dei de cara com sensações, já quase esquecidas, na penumbra, qual a chama de uma vela, no finzinho. Além de me atracar com esses "pseudos-textos", posso chamá-los assim, porque a maioria não passava de uma geringonça de garranchos, que me trouxe um alto grau de dificuldade até, pra decifrá-los. Afinal de contas, rascunhos são rascunhos, a gente produz como pode e deixa pra lá. Uma das funções primordiais do rascunho é não deixar uma ideia, ou o sentido central de uma ideia, se perder. Ao longo do período, que fiquei cuidando dos meus rascunhos, redescobri, reaprendi e aprendi uma série de coisas sobre mim mesmo. Como por exemplo, por quê guardar tanto rascunho? Descobri que sou apaixonado por processos científicos, ainda que seja só pra fazer arte. Por isso, guardava esses rascunhos como se estivesse guardando códigos de uma fórmula, para criação de alguma arma de guerra. Quando penso nisso, impossível não lembrar de uma conversa com o filósofo e professor Júlio Tavares, quando falávamos sobre "Jongo contemporâneo" e ele do alto de sua sabedoria dizia: "...Quem tem um conceito, já ganhou metade da guerra!" Tenho que admitir que estou trabalhando, conceitualmente, desde que comecei a me expressar publicamente. Daí, a causa de tantos rascunhos. Outra coisa que aprendi, é que cada rascunho é múltiplo de si. Quero dizer, que se eu voltar várias vezes no mesmo rascunho, posso produzir vários textos diferentes, é como se o rascunho fosse um radical, que se combina com diversos prefixos e sufixos, ou um pré-roteiro que pode receber alterações no seu início e no seu final. Para ser honesto comigo e com minha fase de aspirante a escritor, sempre soube que não ia dar conta de todos os rascunhos, alguns seriam publicados, tal como foram escritos, só seriam transcritos. Ao mesmo tempo, precisei admitir, dessa vez, pra fortalecer o conceito "rascunho-gráfico", que esse livro, jamais seria concluído ou finalizado, estaria sempre em fase de elaboração, seria sempre um monte de rascunhos inacabados. Tenho rascunhos da adolescência e não paro de produzi-los, onde vou chegar com tantos rascunhos? Por isso, resolvi começar esse texto, na intenção de utilizá-lo na apresentação do meu primeiro livro de reflexões sobre o exercício da memória afetiva, através da arte de escrever. Ao contrário do que possa parecer, produzo muito rascunho, porque sou inquieto, crítico e auto-crítico o suficiente pra ficar anos sem escrever nada, só ouvindo, lendo, pesquisando e re-significando o barato de escrever. Ao mesmo tempo, gosto tanto do que faço e acredito tanto no meu "taco", que sou capaz de afirmar: Essa é a apresentação que sempre quis pra esse livro. Boas reflexões para todos.

Bipolar

Às vezes, me parece que ser bipolar é saber viajar, de um polo ao outro, sem parar... Como se fosse um raio na velocidade imperceptível de um piscar... Assim, enquanto escrevo e pisco percebo com quantas piscadas vejo um verso e com quantas pinçadas pinço um cisco... Essa noite sonhei que estava numa pescaria, colocava a isca no anzol, lançava o anzol na água e não fisgava a peixaria... depois de algum tempo, já exausto, me rendi com as mãos pro alto e decidi que só ia pescar poesia... Ser bipolar é confundir a meta de um pescador com a de um poeta. Daquele dia pra cá, escrevo sempre que penso em pesca. Não sei com quantos peixes se faz uma peixada nem quantos versos tem uma poesia pescada. Ah!Isso não sei, o importante é que pesquei... É claro que não contei a quantidade de piscadas. Ser bipolar é se comprimir entre os polos, pra se explicar... A arte do pescador é pescar peixes no mar, já o poeta tem a arte de ciscar ciscos no olhar.

Raciocínio negrológico

Em uma casa de terreiro, nasce o sambista, que faz samba de terreiro. O samba feito no terreiro, quase sempre é numa roda com mais de um sambista. Em uma roda de samba, nascem várias ideias, inclusive, a de criar uma escola de roda de samba de terreiro... Pra que nasçam outros sambistas, herdeiros daqueles que criaram as primeiras rodas de sambas e os primeiros sambas de terreiro. Nessa mesma casa, com terreiro, roda de samba, sambistas e muitas ideias, reinventa-se a lógica de ser "humano negro", uma espécie de negrolosofia.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Zumbiurbano

Esse entardecer tá cheio de vontade, de me debulhar em versos crus, Escarnecer minha sobriedade e dar meus grãos aos urubus... Enquanto o sol se devora, assim, a meia luz, aquela espiga de milho já é bagaço, depois que gerou fubá, que virou cuscus, sem deixar vestígios, no tempo e no espaço, para que ninguém encontre-nos... Eu, o entardecer, o sol e o milho, tipo, pai, espírito santo e o filho... Abrasados, abraçados, nus, sob a sombra, do perdão, do pecado, e da cruz... Nossas almas vendidas, por qualquer conto de réis! Nossos corpos marcados, por linhas e pontos cruéis... Tal qual em ritos vudus, em que sonâmbulos vagam por aí, como notas perdidas de um blues... Sons que sangram a carne nos porões da cidade, que de vez em quando, samba, chora e ri... No fundo sou tudo isso! Faço meu próprio feitiço, sou herdeiro de Zumbi!!!!!! Poema para iniciados, pra falar da "questão sangrenta" dos negros, que não querem mais sangrar, em nome de nenhuma ordem social, econômica e política. Já sangramos demais por doutrinas e ideologias desiguais.

sábado, 13 de outubro de 2012

Rascunhos de nós mesmos

Na tentativa de não desperdiçar meu fluxo natural de ideias, após pensar, me virar de um lado pro outro, passar noites em claro, perambular por mil e tantas madrugadas, carregando vários sonhos e projetos quase impossíveis, consegui articular-me e equilibrar-me, entre o peso das experiências e a leveza plumária da inteligência, pra iniciar um trabalho literário, de cunho investigativo sobre a funcionalidade daquilo que todos nós, já conhecemos como "rascunho." Isso mesmo, aquela parte de tudo que escrevemos ou tentamos escrever, que só usamos como base, pra algo que ainda não sabemos ao certo o que será, um esboço à espera de uma finalização, que pode não acontecer. Enfim, o alicerce de toda elaboração textual, que só permanece em seu formato original e para além do seu tempo, se for esquecido. Quando lembrado, deixa,imediatamente,de ser o que é pra ser obra de arte, após ser transformado, finalizado, ninguém mais quer saber de suas características, todos só tem olhos pro resultado final, como se fosse possível, na construção de uma casa, por exemplo, depois de levantar as paredes, emboçá-las e pintá-las, esquecermos do piso e do alicerce, que é a base de sustentação de tudo, ou como em uma sociedade, que tem em sua base a mão de obra operária, mas não se lembra de cuidar e respeitar essa base. Pensando sobre a natureza e a raiz das "coisas", resolvi me colocar no lugar desses estranhos seres abstratos, que tem ancestrais dinossáuricos na idade da pedra, nas paredes das cavernas... primeiro pra entender que, sem eles não haveria literatura, em seguida, pra defendê-los como um dos produtos mais importantes em qualquer processo de elaboração inteligente, que resulte em linguagem escrita. Assim, como os rascunhos que produzimos, nós, humanos, passamos por vários estágios e, enquanto crescemos somos rascunhos de nós mesmos, de nossos pais e de nossos filhos.Por tanto, o respeito que queremos pra nós, deve ser exigido pra todos, que se desenvolvem como nós. Esse é um manifesto de insatisfação e profunda indignação com a relação desrespeitosa, que a maioria dos escritores e outros profissionais que lidam com a feitura de textos, tem com os seus rascunhos. Os rascunhos são responsáveis por tudo, sem eles não há obra final!