segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

ACÚMULO

Os rascunhos se acumulam, cada vez mais. A dinâmica da minha vida, a correria no meio do caos, não me deixam transformá-los em obras finais. Assim, sigo assustando-me com minha incompetência organizacional. O susto é tanto, que, às vezes, não me dou conta do valor do trabalho intelectual. Aí, chego a pensar, que só é possível, executar tais tarefas, se trabalhar feito um operário convencional. Nesse caso, não sou analfabeto funcional, Ainda menino, fui iniciado no mundo do trabalho braçal. Depois, tomei consciência da exploração capitalista, a mão de obra operária, a mais valia, a pessoa tratada como mercadoria, as leis trabalhistas e acumulação do capital. Portanto, se me acumulam tantos rascunhos, por que motivo, não negociá-los, afinal? Pode ser, que entre tantos rascunhos, haja uma obra genial. Já guardei muitos papéis rascunhados, com o tempo, ficaram amarelados. Agora, o rascunho é digital e o acúmulo é virtual. Vou vender rascunho no mercado internacional.

domingo, 8 de maio de 2016

Rascunho proposital

Ao longo do nosso desenvolvimento humano, é claro, que essa observação só pode ser feita por alguém, que alcançou ou pelo menos, acredita ter alcaçado, algum nível de desenvolvimento naquilo, que pode ser entendido como humano. Pois, está ficando, cada dia mais complexo entender o que é humano. Bem, esse tipo de construção textual, não seria possível, se não houvesse, aqui, um compromisso ético-estético com o rascunho. Recorro, outra vez, ao mestre Oscar Niemeyer, pra expressar o quanto fui afetado, não tanto por suas obras acabadas, transformadas em referências para história da arquitetura mundial, mas, pela força estética de seus rascunhos. Todas as reportagens, entrevistas e documentários que assisti, onde a obra de Niemeyer era a centralidade, seus rascunhos se apresentavam, pra dar conta da interlocução com o público. Talvez, fosse impossível, apresentar as obras e não apresentar os rascunhos. Estou consciente, de que em literatura, é diferente. Parece haver um acordo interinstitucional, que envolve escritores, editoras, leitores comuns e pesquisadores, quanto a inutilidade do rascunho. Assim, como ver os traços agarranchados, com aspectos de escrita inacabada, feita por um aluno rebelde, que nunca quis ser visto como aquele que "escreve bem" e "tem letra bonita", na mesma medida, sempre gostei de encontrar no interior de obras literárias, os manuscritos de seus autores. Esse fenômeno interrelacional com a subjetividade do trabalho escrito, sempre aconteceu comigo e cada vez, que encontrava um manuscrito, abria-se um portal de análise diferenciado para novas especulações, acerca dos múltiplos modos de comunicar uma ideia através da escrita. As linguagens artísticas, que mais pratico, são música e literatura, com merecidíssimo destaque, para a poesia-musicada ou música-poetizada. São práticas que estão na centralidade daquilo, que acredito ser o meu processo de desenvolvimento humano, desde os sete anos, quando entrei pela primeira vez, em uma sala de aula e pude comparar com as aulas, que recebia em casa, de minha mãe, meu pai e meus irmãos...cada um com sua própria didática. Tenho defendido, aqui, a importância dos meus rascunhos para a construção de um caminho próprio de elaboração intelectual, que se traduz em textos, ora artísticos, ora, acadêmicos, de acordo com a minha predisposição e necessidade, no setido do que considero ser o meu processo de desenvolvimento artístico, intelectual, social e político, logo, humano. Estou experimentando, artísticamente, em música, em literatura e em áudio-visual, esse terceiro campo, não é recente em minha vida, no entanto, atualmente, tenho me dedicado às experiencias elaborativas, o que antes, não fazia, por falta de recursos e tecnologias.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Teorias dos rascunhos

Quando percebi que podia operar códigos da Língua portuguesa para comunicar algo que me inquietava, comecei a viver uma série de experiências surpreendentes. Depois de escrever, ininterruptamente, para exercitar e desenvolver o hábito, a técnica, pra talvez, chegar a um estilo, uma forma própria de se comunicar através da arte escrita, uma coisa aprendi: não se produz uma obra de arte escrita, sem antes produzir rascunhos...e, passei a me encantar pela possibilidade de acessar e descobrir o que os grandes escritores jogavam no lixo. Sempre que via aquelas cenas clássicas das bolinhas de papel, caindo na lixeira ou rolando pelo chão, ficava curioso e a imaginação dava linha na pipa. Após muita observação sobre tudo que chamava minha atenção, entendi que o rascunho era a parte indesejável de um texto. Mais adiante, descobri que nem sempre era a vontade do autor que determinava o que seria texto final e o que seria rascunho. Nessa seqüência de percepções e descobertas, outras vieram. Uma ficha decisiva caiu quando dei mais atenção aos "rabiscos geniais" de Oscar Niemeyer, já que não pude ver os rascunhos do André Rebouças. Ali compreendi, que a arte de projetar, requer interpretação livre e ao mesmo tempo, rigorosa sobre os aspectos do rascunho. No entanto, como nunca temos acesso aos rascunhos que geraram grandes obras de arte, me preocupei em guardar meus rascunhos, ao invés de descartá-los, é claro que não consegui guardar todos, muitos se perderam. Assim, ao longo do meu exercício com a escrita, em todos os sentidos, desenvolvi um afeto quase doentio pelos rascunhos. No momento em que comecei a consolidar a ideia de publicar um livro, estava tão apegado aos rascunhos, que não conseguia imaginar minha primeira publicação literária sem a presença integral ou em parte, do conteúdo dos tais rascunhos. Então, tenho trabalhado, no sentido de recuperar e traduzir os estímulos iniciáticos da considerável porção rascunho da minha relação com a língua portuguesa e a literatura brasileira. Tenho cuidado para não me tornar um acumulador de papéis amarelados, manchados pelo tempo, mas, às vezes, isso acontece. Nesse trabalho tenho encontrado caminhos ainda mais estimulantes para refletir sobre, por exemplo, os diferentes níveis de relação que o povo brasileiro tem com a língua escrita e o quanto tais diferenças facilitam ou dificultam uma compreensão mais precisa do que seja o país, considerando o significativo número de analfabetos, os semi-alfabetizados e uma elite reduzida que domina os códigos da norma culta. Hoje, estou convencido da relevância dos meus rascunhos e por isso estou finalizando este livro Teorias do rascunho, rascunhos pré-textuais. Uma reflexão sobre tudo aquilo que queremos realizar, mas, que ainda não temos estrutura suficiente para fazê-lo, mesmo assim, fazemos. Talvez, seja uma característica que defina um princípio filosófico na forma como o povo brasileiro entende ou tenta entender o que é ser brasileiro. Quando se diz: Brasília é uma cidade planejada e o Rio de Janeiro é uma cidade espontânea. Isso sempre me deixou muito intrigado e provocado a pensar, criticamente, se espontânea não quer dizer: desestruturada, sem acabamento, não pensada. Uma cidade que se desenvolveu de acordo com as necessidades imediatas da Coroa Portuguesa. Quando entrei em um CIEP, pela primeira vez, percebi o quanto aquela arquitetura me chapava, no bom sentido e o quanto chapava as crianças também. Olhar para um prédio que foi projetado e olhar uma favela, é constatar o desespero com que as pessoas pobres constroem suas casas e como os pobres são maioria, a arquitetura do desespero define a estética arquitetônica da cidade, que hoje, chamo de Cidade rascunho. Às vezes, me parece que nada está acabado nessa cidade. Mesmo o que parece está pronto, ainda é rascunho.

É preciso ser, para além do ser

Mais que nunca é preciso contar, recontar e cantar, para além do que te ensinaram ser um conto. Mais que nunca é preciso estar, para além do que te ensinaram ser o Estado. Mais que nunca é preciso compreender o caos, para além do que te ensinaram ser o caos. Mais que nunca é preciso entrar em suas próprias entranhas, sem medo de se perder. É preciso, se necessário, desentender-se consigo, até encontrar o itinerário pra se entender. Mais que nunca é preciso revirar o solo da história, para além do que te ensinaram ser a história. Mais que nunca é preciso educar, para além do que te ensinaram ser educação. Mais que nunca é preciso fazer arte, para além do que te ensinaram ser arte. Mais que nunca é preciso criar, para além do que te ensinaram ser a criação. Mais que nunca é preciso perceber, para além do que te ensinaram ser a percepção. Mais que nunca é preciso ler, para além do que te ensinaram ser a leitura. Mais que nunca é preciso escrever, para além do que te ensinaram ser a escrita. Mais que nunca é preciso sentir, para além do que te ensinaram ser o sentimento. Mais que nunca é preciso conscientizar-se, para além do que te ensinaram ser a consciência. Mais que nunca é preciso pensar, para além do que te ensinaram ser o pensamento. Mais que nunca é preciso ser livre, para além do que te ensinaram ser a liberdade. Mais que nunca é preciso ser, para além do que te ensinaram ser. Mais que nunca é preciso viver, para além do que te ensinaram ser a vida. Mais que nunca é preciso humanizar-se, para além do que te ensinaram ser humano. Mais que nunca é preciso aprender, para além do que te ensinaram ser o aprendizado. Mais que nunca é preciso ensinar, para além do que te ensinaram ser o ensino. Mais que nunca é preciso conhecer-se, para além do que te ensinaram ser o conhecimento. Mais que nunca é preciso se inventar, para além do que te ensinaram ser uma invenção. Mais que nunca é preciso sonhar, para além do que te ensinaram ser o sonho. Mais que nunca é preciso realizar, para além do que te ensinaram ser uma realização. Mais que nunca é preciso libertar, para além do que te ensinaram ser a libertação. Mais que nunca é preciso descolonizar-se, para além do que te ensinaram ser a descolonização.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Sou assim

Se não fosse como sou, não saberia o que é ser assim. Se não tivesse nascido onde nasci, não saberia o que é nascer ali. Se não tivesse me criado em várias partes do Estado do Rio, não saberia que ser fluminense é muito mais que torcer pro clube carioca. Se não tivesse caído do berço antes dos dois anos, não saberia os significados de uma queda. Se não tivesse me queimado no ferro de passar roupa, não teria descoberto que algo quente demais queima a pele. Se eu não fosse neto de seu Policarpo de Paula, não teria tantas melodias na composição dos meus tecidos neuronais, não teria ficado exposto aos seus momentos de inspiração, no alto do morro São João, abraçado a sua pequena sanfona de oito baixos. Se não fosse filho de D. Mariana Francisca Baptista, não saberia o que era ser mulher negra, pobre e mãe entre as décadas de 50 e 90, na periferia da cidade do Rio de Janeiro. Se não fosse filho de D. Mariana, não teria o privilégio de aprender gungunados, pontos de jongo, maxixes e sambas dentro de casa. Se não tivesse vivido parte da infância em Campos dos Goytacazes, não saberia o que significa ser Boia-fria, agricultor, trabalhador rural e latifundiário. Não entenderia a lógica da reforma agrária. Não teria aprendido a respeitar o tempo da semente que introduzimos na terra, até virar planta, até gerar o fruto-alimento. Se não tivesse vivido tais experiências, não seria quem sou. Sou assim, porque, vivi assim.

ARTE, abreviatura

A letra "a", primeira do nosso alfabeto, coincidentemente, a primeira do meu nome e a primeira da palavra arte. Desde que percebi minhas inquietações, inconformações e incompreensões sobre as coisas da vida, tento, com certa persistência, resolvê-las com reflexões e ações possíveis. Ao mesmo tempo, por não haver fórmula perfeita, permaneço em constante processo de tentativas, colecionando erros e acertos, convencido de que não se deve temer a possibilidade de errar por não ter certeza do acerto, pois, pior que isso, seria pensar estar certo temendo o erro. O interessante nessa equação é perceber o quanto as experiências alteram nossa estrutura de percepção, provocando posicionamentos diferenciados diante da vida. Por exemplo, essa madrugada, entre o cansaço do dia, ideias perambulantes e alguma dificuldade de entrar em estado profundo de sono, acabei me entregando a uma reflexão sobre a palavra "Arte". Fiquei me imaginando dentro de um organismo gigante, que alguém resolveu chamar de Arte e sentia necessidade de conhecer cada parte desse organismo, para tanto, precisava encontrar os sentidos ocultos, em cada uma de suas partes ou compartimentos. Esse exercício foi fundamental pra me conduzir ao estado de sono que precisava. Foi uma viagem tranquila e gratificante. Acordei com uma extrema vontade de traduzir algo dessa experiência, não sobrou muito de todo o acontecimento, mas... viajei na onda da palavra Arte como se fosse uma abreviatura, um código de entrada para um determinado sistema. Então, o A seria Ar, o R seria respiração, o T seria tempo e o E seria espaço. Essa equação me confirmou a informação de que a Arte é o próprio ato de viver, é a própria vida. Estar vivo significa estar em estado de arte, ou seja, vida e arte, completam-se. Não há vida sem arte e nem arte sem vida. A partir daí, podemos pensar que a morte seria a ausência de arte ou uma interrupção no processo da vida e, gerar, ininterruptamente, a vida, seria a maior obra de arte possível. Contudo, isso é só uma reflexão sobre a palavra ARTE, no sentido de abreviatura da VIDA. Boas reflexões e até a próxima!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Arte de ler e escrever arte

Ler pode nos levar à Leicura, quero dizer, que ler cura. Ler pode levar alguém à loutura? Mas, essa palavra não existe! Ah! É claro. Licença poética pra fundir loucura com leitura. Enfim, coisas da literatura. Convido pra essa leitura uma interlocutora importante pra nossa reflexão, Marisa Lajolo(2001). "A literatura fala de vários mundos: alguns parecidíssimos com o nosso, onde, por exemplo, tem gente que morre de fome nas ruas, e de mundos muito diferentes, onde vivem espíritos, anjos, energias e demônios".( Lajolo, 2001, p.9) Trouxe esse comentário pra ilustrar meu assunto principal, que trata de uma cena inesquecível da minha adolescência, que sempre me motivou a ler e a escrever, sobretudo, para compreender porque essas duas atividades podiam apresentar algum tipo de perigo pra alguém. Então, vamos à cena: Por volta dos meus catorze e quinze anos, estava sendo iniciado no movimento comunitário, fato que alteraria toda a configuração da minha cabeça pra sempre. A principal atividade nesse período era a leitura de clássicos da filosofia, do pensamento sociológico, político e econômico, entre eles, Aristóteles, Hegel, Marx, Hidegger, Gramsci, Lukács, entre outros. Esses autores consagrados como verdadeiros monstros da arte de pensar, me assombravam, uma vez que eu estava começando meu processo de militância política, tinha uma certa urgência de aprender o básico sobre a engenharia do pensamento, ou seja, precisava desenvolver um relacionamento sério com a teoria social crítica, além de outras demandas, como por exemplo, me decidir quanto a minha prática religiosa, se seria católica, umbandista, candomblecista, protestante, budista ou qualquer outra coisa, que eu pudesse dar conta naquela fase da minha vida. Nesse período, li alguns clássicos da literatura brasileira e portuguesa, que foram fundamentais para a formação da minha base poética. Logo, cheguei a conclusão que não daria conta de nenhum processo doutrinário e, que a tendência mais próxima daquilo tudo que ainda não sabia sobre mim mesmo, era o ateísmo, que por me parecer extremo demais, me exigia uma dose exaustiva de estudos filosóficos e teológicos, diariamente. Essa autodeterminação pelo conhecimento foi me transformando num autodidata e, se há alguma característica que defina um autodidata, posso apontar o comportamento autocentrado. No entanto, a prática política em torno das questões da comunidade, me ajudava a equilibrar essa postura autocentrada, à medida que me relacionava com a teoria num exercício de monge, no interior do meu quarto, procurava aplicar o conhecimento estudado às várias demandas que se apresentavam no cotidiano comunitário e, ao mesmo tempo, deixava minha vida seguir os ventos que sopravam do seio desse movimento comunitário para outras partes do mundo ou do meu mundinho imediato de pequeno príncipe-monge-negro, candidato a líder comunitário,poeta e intelectual orgânico, nos termos de Gramsci. No meio dessa aparente complexidade, ainda tinha que cuidar da casa, ir à escola e realizar alguma atividade que pudesse ser chamada de "trabalho remunerado". Assim, esses anos foram marcados por uma rotina, pontuada por esses tópicos. Todos os fins de tardes, quando meu tio chegava do trabalho, ele era funcionário público, da secretaria de obras, lá estava eu, com a luz acesa, agarrado com minhas leituras e rascunhos. Essa prática já me acompanhava desde a infância, quando ficava lendo as revistas em quadrinhos do meu irmão, ás vezes, à luz de vela. Naquela fase, não estava nem um pouco preocupado com a conta de luz, queria ler, ler, até cair de sono e dormir, profundamente. Meu tio, incomodado com aquele comportamento estranho pra ele, que era um homem semi-alfabetizado, se é que podemos pensar em alguém semi-alfabetizado. Pra ele, o meu comportamento, era preocupante. Eu poderia estar enlouquecendo de tanto ler...poderia estar desenvolvendo um quadro psicótico, por parecer tão isolado e absorvido pelas leituras. Como ele não sabia me explicar o que pensava de mim, falava qualquer coisa que pudesse me provocar a alterar minha rotina, assim, em uma daquelas tardes, ele não se segurou e mandou: "...Meu sobrinho, escuta aqui! Eu tô muito preocupado com você. Você fica aí, nesse quarto quieto...toda vez que eu chego, você tá aí, com a luz acesa, lendo esses livros, que eu não sei pra que servem-aí, respirou e completou- eu tô achando que você vai ficar meio maluco e, é por isso que tô preocupado". Me lembro que tentei explicar pra ele, a importância daquelas leituras pra mim, porém, sei que ele continuou acreditando que aquilo me levaria a loucura. Bem, de lá pra cá, já li dez vezes mais a quantidade de livros, que estava na minha mesa, naquele fim de tarde e, até acho que conheci, de certa forma, um pouco de loucura, no entanto, é a loucura do conhecimento e a cada dia, enlouqueço um pouquinho mais. Cada novo texto publicado me deixa um pouco mais louco, louco para ler outro, escrever outro e publicar outro. Boas leituras e boas reflexões. Até o próximo texto.